Boas ideias mudam mercados. Algumas dão certo, outras ensinam. É justamente esse processo que me interessa.
Nesta seção compartilho reflexões sobre empreendedorismo, inovação, tecnologia e negócios. Alguns textos nascem da experiência, outros da observação, do estudo e da curiosidade de quem gosta de entender como as coisas funcionam, e como podem funcionar melhor.
Se algum artigo provocar uma nova ideia, abrir uma oportunidade ou dar início a uma boa parceria, ele terá cumprido seu papel.
Boas ideias merecem boas conversas.
Rinaldo Conti
Por Rinaldo Conti
Empreender nunca foi uma tarefa simples. No Brasil, talvez seja ainda menos. Burocracia, carga tributária, crédito caro, mudanças regulatórias e instabilidade econômica fazem parte da realidade de quem decide abrir uma empresa. Ainda assim, milhões de brasileiros escolhem esse caminho todos os anos.
O empreendedor brasileiro típico está longe da imagem do grande empresário. Na maioria das vezes, trata-se de alguém que identifica uma oportunidade — ou simplesmente precisa criar a própria fonte de renda — e decide construir um negócio praticamente do zero.
Segundo o Sebrae, os pequenos negócios representam cerca de 95% das empresas ativas do país e respondem por aproximadamente 26,5% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Além disso, foram responsáveis por cerca de 80% dos empregos formais gerados em 2025, consolidando-se como o principal motor da economia nacional. (Empreendedorismo e Negócios)
Em outras palavras, quando se fala em empreendedorismo no Brasil, estamos falando principalmente de microempreendedores, microempresas e pequenas empresas.
A legislação brasileira estabelece alguns limites de faturamento.
MEI (Microempreendedor Individual): até R$ 81 mil por ano.
Microempresa (ME): faturamento anual de até R$ 360 mil.
Empresa de Pequeno Porte (EPP): entre R$ 360 mil e R$ 4,8 milhões por ano.
Acima desse limite, a empresa deixa de ser enquadrada como pequeno negócio para fins do Simples Nacional.
É importante lembrar que faturamento não é lucro. Uma empresa pode faturar milhões de reais e apresentar margens pequenas, enquanto outra, menor, pode ser bastante rentável.
Abrir uma empresa é relativamente fácil. Mantê-la saudável ao longo do tempo é o verdadeiro desafio.
Os estudos do Sebrae mostram que aproximadamente:
71% dos MEIs continuam ativos após cinco anos;
78% das microempresas sobrevivem ao mesmo período;
83% das empresas de pequeno porte permanecem em atividade. (Sebrae Goiás Notícias)
Embora esses números sejam positivos quando comparados a décadas anteriores, eles também mostram que milhares de empresas encerram suas atividades antes de amadurecer.
Essa talvez seja a pergunta mais difícil de responder.
Diferentemente de um trabalhador assalariado, o empreendedor não possui remuneração fixa. Em muitos casos, principalmente nos primeiros anos, o proprietário retira apenas o suficiente para manter suas despesas pessoais.
Segundo estimativas do Sebrae, a renda média familiar anual gerada pelos pequenos negócios indica valores próximos de:
MEI: cerca de R$ 5,5 mil por mês;
Micro e pequenos empresários: aproximadamente R$ 13,4 mil mensais, considerando a renda familiar dos empreendedores. (Empreendedorismo e Negócios)
Naturalmente, existe enorme variação entre setores, regiões e estágios de desenvolvimento das empresas.
Nenhum estudo encontrou uma fórmula mágica para empreender. Porém, alguns padrões aparecem com frequência entre empresas que conseguem crescer de forma consistente.
Entre eles destacam-se:
planejamento antes da abertura;
controle rigoroso do fluxo de caixa;
conhecimento do cliente;
adaptação rápida às mudanças do mercado;
uso crescente de tecnologia;
presença digital consistente;
busca contínua por aprendizado;
capacidade de reinvestir parte dos resultados no próprio negócio. (Empreendedorismo e Negócios)
Mais do que genialidade, o sucesso costuma estar associado à disciplina e à capacidade de aprender continuamente.
Existe uma romantização do empreendedorismo.
As redes sociais frequentemente mostram apenas empresas bem-sucedidas, faturamentos milionários e histórias extraordinárias. A realidade da maioria é muito mais simples.
Empreender costuma significar trabalhar muito, aprender constantemente, resolver problemas diariamente e conviver com incertezas que dificilmente aparecem em uma planilha de negócios.
Ao mesmo tempo, é justamente essa capacidade de adaptação que explica a força dos pequenos negócios brasileiros. Eles nascem, evoluem, mudam de direção quando necessário e continuam movimentando a economia do país.
Não acredito que empreender seja um caminho obrigatório, nem que seja adequado para todas as pessoas.
Mas acredito que compreender como os negócios funcionam é útil para qualquer profissional, independentemente da carreira escolhida.
Educação financeira, gestão, vendas, inovação e planejamento deixaram de ser conhecimentos exclusivos dos empresários. Tornaram-se competências importantes para quem deseja construir uma vida profissional mais sólida.
Talvez essa seja a principal lição: antes de criar uma grande empresa, vale a pena desenvolver uma mentalidade capaz de aprender continuamente, adaptar-se às mudanças e seguir em frente.
Agência Sebrae – Pequenos negócios somam 24 milhões de empresas ativas
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Agência Sebrae – Renda anual gerada pelos pequenos negócios chega a R$ 717 bilhões em 2024
Quando ninguém percebe que alguém está no limite
Por Rinaldo Conti
No fim de 2019, não era apenas o ano que estava chegando ao fim. Eu também estava terminando de construir ( literalmente ) a nova sede da empresa. Pequena, modesta, mas feita com o melhor que minha energia, minha capacidade e meus recursos permitiam. Na véspera de Natal, os pedreiros não apareceram. Quando o relógio marcou meia-noite, eu acabava de encher sozinho uma caçamba com quase uma tonelada de entulho. Cada saco de entulho havia descido seis andares. Cada saco de cimento, cada piso, cada ferramenta havia subido o mesmo caminho...
Não sei se foi o desgaste físico, a frustração de depender de uma mão de obra escassa , especialmente durante o verão, ou a sensação de que a palavra de um homem já não valia tanto quanto deveria. Talvez tenha sido simplesmente o acúmulo de um ano inteiro vivendo no limite. Na primeira semana de janeiro, com a obra finalmente pronta, saí para ir ao banco. No caminho, tudo começou a ficar estranho. Minha visão embaçou, e só não acabei com a cabeça enfiada na calçada por sorte... A próxima lembrança que tenho é de uma ambulância do SAMU, e alguém me falando sobre desidratação. Não fui ao médico, não precisava de mais coisas pra me preocupar, e a ironia do ano que se iniciava é que eu tinha acabado de inaugurar uma clínica.
Existe um lado do empreendedorismo que raramente aparece nas redes sociais. Não está nas fotos dos escritórios modernos, nas comemorações por metas alcançadas ou nos discursos sobre alta performance. É o desgaste silencioso de quem passa meses ou anos tentando manter um negócio de pé enquanto estuda, trabalha, administra, resolve problemas e tenta cuidar da própria vida.
No Brasil, essa realidade é comum. Pequenos empresários frequentemente acumulam funções que, em empresas maiores, seriam divididas entre vários profissionais. São gestores, vendedores, administradores, analistas financeiros, profissionais de marketing e, muitas vezes, ainda precisam estudar para acompanhar um mercado que muda rapidamente.
Aprender continuamente deixou de ser um diferencial para se tornar uma necessidade. Novas tecnologias, mudanças na legislação, ferramentas digitais e inteligência artificial exigem atualização constante. O problema surge quando o tempo dedicado ao aprendizado passa a disputar espaço com o descanso, a convivência familiar e a própria saúde.
O corpo costuma dar sinais antes de parar. Cansaço persistente, dificuldade para dormir, perda de concentração, irritabilidade, ansiedade e queda na produtividade podem indicar que a rotina deixou de ser sustentável. Muitas vezes, esses sintomas são interpretados apenas como consequência natural de "quem trabalha muito", quando, na verdade, podem representar um pedido de atenção.
Talvez o aspecto mais preocupante seja que esse desgaste nem sempre é visível. Pessoas altamente produtivas continuam entregando resultados, participando de reuniões, cumprindo prazos e aparentando normalidade, enquanto enfrentam um nível de exaustão que poucos conseguem perceber. Em muitos casos, nem elas próprias reconhecem o quanto ultrapassaram seus limites.
A Organização Mundial da Saúde reconhece a síndrome de burnout como um fenômeno relacionado ao trabalho, caracterizado por exaustão física e emocional, distanciamento mental das atividades e redução da capacidade profissional. Embora o diagnóstico dependa de avaliação especializada, o reconhecimento do problema reforça que produtividade e saúde precisam caminhar juntas.
Empreender exige persistência, mas persistir não significa ignorar os próprios limites. Descansar não é falta de compromisso. Delegar tarefas não é sinal de fraqueza. Pedir ajuda também não.
Nenhum projeto justifica o adoecimento de quem o construiu.
Talvez uma das competências mais importantes do empreendedor moderno seja aprender a reconhecer quando o esforço deixou de produzir crescimento e passou apenas a consumir sua energia. Empresas podem ser recuperadas, estratégias podem ser revistas e mercados mudam constantemente. A saúde, porém, nem sempre oferece uma segunda oportunidade. O que mais machuca não é a queda, não é bater de cara na calçada depois de um desmaio. É perceber como a exaustão costuma ser invisível. Pouca gente enxerga a energia consumida depois de dez ou doze horas diante de um computador, tomando decisões, resolvendo problemas e carregando responsabilidades que ninguém vê. Para muitos, os resultados parecem ter surgido da noite para o dia, como se não existissem anos de trabalho silencioso por trás de um único fim de semana de descanso.
Algumas dores não têm remédio. Algumas sequer têm explicação. Mas muitas podem ser prevenidas. Talvez o maior desafio do empreendedor não seja apenas cuidar da empresa, e sim aprender a cuidar de si mesmo.
Organização Mundial da Saúde (OMS) – Classificação Internacional de Doenças (CID-11): Burnout.
Sebrae – Saúde mental e bem-estar dos empreendedores.
Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) – Saúde mental relacionada ao trabalho.
International Labour Organization (ILO/OIT) – Saúde mental no ambiente de trabalho.