Ideias que informam. Conhecimento que faz diferença.
Esta seção reúne artigos, relatos e resenhas sobre livros, cursos e temas relevantes que tem servido para o meu desenvolvimento pessoal, acadêmico e profissional. Entre os assuntos abordados estarão economia, mercados, agronegócio, zootecnia e outras áreas que tem me ajudado a ampliar perspectivas e fundamentar melhores decisões.
Escolha um tema de seu interesse e aproveite a leitura. Se desejar sugerir um assunto ou compartilhar sua visão sobre qualquer conteúdo publicado, entre em contato.
Produzir no campo sempre envolve riscos. Uma estiagem, uma geada ou uma chuva intensa podem comprometer meses de trabalho e colocar em risco a renda do produtor. Para reduzir esse impacto existe o Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro), uma política pública criada para proteger quem financia a produção rural.
Muita gente acredita que o Proagro funciona como um seguro que paga qualquer prejuízo, mas não é assim. O programa oferece cobertura apenas quando a perda é causada por eventos previstos nas normas, como seca, granizo, geada, excesso de chuvas e outros fenômenos naturais, desde que o produtor tenha seguido corretamente as recomendações técnicas da lavoura.
Isso significa que não basta contratar o financiamento. É preciso plantar na época recomendada, utilizar sementes adequadas, realizar adubação, controlar pragas e doenças e cumprir o projeto técnico elaborado para a propriedade. Caso essas exigências não sejam respeitadas, o produtor pode perder totalmente o direito à cobertura ou receber uma indenização menor.
Outro ponto importante é manter toda a documentação organizada. Notas fiscais, receituários agronômicos, comprovantes de despesas e registros das atividades realizadas na lavoura podem ser fundamentais durante a análise do pedido. Quanto melhor for a comprovação do manejo e dos investimentos realizados, maior será a segurança durante a perícia.
Se ocorrer uma perda causada por um evento coberto, o produtor deve comunicar imediatamente a instituição financeira e aguardar a vistoria técnica antes de realizar qualquer intervenção na área. Alterar a lavoura antes da perícia pode comprometer a análise e até resultar na perda do benefício.
Mais do que uma proteção financeira, o Proagro é um incentivo à boa gestão da propriedade rural. O programa recompensa o produtor que trabalha com planejamento, segue as orientações técnicas e mantém sua atividade organizada. Em um setor onde os riscos fazem parte da rotina, informação e organização continuam sendo as melhores ferramentas para proteger a produção.
Rinaldo Conti
Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC
*Este artigo foi elaborado com base no conteúdo do curso "PROAGRO: O que você precisa saber?", da Escola Nacional de Administração Pública (Enap).
A verminose é um dos principais desafios da ovinocultura brasileira. Em muitos rebanhos, ela reduz o ganho de peso, compromete a reprodução, aumenta a mortalidade de cordeiros e gera prejuízos que poderiam ser evitados com um manejo adequado.
O maior erro de muitos produtores é acreditar que basta aplicar vermífugo regularmente. Na prática, essa estratégia favorece o surgimento de parasitas resistentes, tornando os medicamentos cada vez menos eficientes. Hoje, o controle da verminose depende de um conjunto de medidas, e não de uma única solução. (Senar SC EAD)
Entre os parasitas mais importantes está o Haemonchus contortus, conhecido como "verme do abomaso". Ele se alimenta de sangue, causando anemia, emagrecimento, fraqueza e, nos casos mais graves, a morte dos animais. Outras verminoses também podem provocar diarreia, atraso no crescimento, problemas respiratórios e redução da produtividade do rebanho. (Senar Play)
A prevenção começa no manejo. Pastagens bem manejadas, lotação adequada, boa nutrição e seleção de animais naturalmente mais resistentes reduzem significativamente a pressão dos parasitas. Essas práticas diminuem a necessidade de tratamentos frequentes e aumentam a eficiência da produção. (YouTube)
Outra ferramenta importante é o método FAMACHA®, que permite identificar animais com anemia por meio da coloração da mucosa ocular. Em vez de vermifugar todo o rebanho, o produtor trata apenas os animais que realmente precisam. Essa estratégia reduz custos, preserva a eficácia dos medicamentos e diminui a seleção de vermes resistentes. (Senar Play)
O exame parasitológico de fezes também é um grande aliado. Ele permite identificar quais parasitas estão presentes e avaliar se o vermífugo utilizado continua funcionando, evitando tratamentos desnecessários ou ineficazes. (Senar Play)
Na ovinocultura moderna, controlar verminoses não significa aplicar mais medicamentos, mas utilizar informação e manejo para interromper o ciclo dos parasitas. Um rebanho saudável depende de observação constante, uso racional dos vermífugos e boas práticas de produção. É essa combinação que garante animais mais produtivos, menores perdas e maior rentabilidade ao produtor.
Rinaldo Conti
Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC
*Este artigo foi elaborado com base no conteúdo do curso "Controle de Verminoses em Ovinos e Caprinos", oferecido pelo SENAR, complementado por materiais técnicos da Embrapa sobre controle integrado de verminoses. (Senar SC EAD)
Os drones deixaram de ser uma novidade para se tornar uma ferramenta de trabalho no agronegócio. Cada vez mais presentes nas propriedades rurais, eles ajudam o produtor a monitorar lavouras, acompanhar rebanhos, identificar falhas de manejo e coletar informações que tornam a tomada de decisão mais rápida e precisa.
Mas, para aproveitar todo esse potencial, não basta comprar um equipamento moderno. A segurança, a conservação do drone e a qualidade das informações coletadas dependem de alguns cuidados básicos antes, durante e depois de cada voo.
O primeiro passo é realizar uma inspeção completa do equipamento. Baterias carregadas, hélices em boas condições, sensores limpos e conexões verificadas evitam falhas que podem comprometer tanto o voo quanto a vida útil do drone. Um pequeno problema identificado no solo pode evitar acidentes e prejuízos no campo.
Outro ponto fundamental é a calibração dos sensores e da bússola eletrônica. Um equipamento mal calibrado pode produzir imagens imprecisas ou até perder estabilidade durante a operação. Por isso, seguir os procedimentos recomendados pelo fabricante deve fazer parte da rotina de qualquer operador.
Antes da decolagem, também é importante utilizar um checklist simples. Conferir bateria, GPS, cartão de memória, condições climáticas e área de voo reduz significativamente o risco de erros operacionais. Assim como acontece na aviação, a maioria dos problemas pode ser evitada com preparação.
No agronegócio, os drones são muito mais do que câmeras voadoras. Eles se transformaram em ferramentas de gestão, capazes de fornecer informações que ajudam a reduzir custos, otimizar insumos e aumentar a eficiência da propriedade. No entanto, a qualidade desses dados depende diretamente da forma como o equipamento é utilizado.
A tecnologia evolui rapidamente, mas um princípio continua o mesmo: bons resultados começam com boas práticas. Operar um drone de forma segura, organizada e responsável garante maior durabilidade ao equipamento, reduz riscos e permite que o produtor aproveite todo o potencial dessa ferramenta no campo.
Rinaldo Conti
Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC
*Este artigo foi elaborado com base no conteúdo do curso "Cuidados Técnicos para Uso de Drones", oferecido pelo SENAR Santa Catarina.
Este relato apresenta as experiências vivenciadas durante a participação no 35º Congresso Brasileiro de Zootecnia (ZOOTEC 2026), realizado na Universidade Federal de Viçosa (UFV), entre os dias 20 e 23 de maio de 2026. O objetivo é descrever os principais temas acompanhados e refletir sobre sua contribuição para a formação acadêmica de um estudante ingressante no curso de Zootecnia. Foram acompanhados os simpósios de Produção de Bovinos de Corte (SIMCORTE), Manejo Estratégico de Pastagens (SIMFOR), Produção de Pequenos Ruminantes (SIMPEQ) e Bovinocultura Leiteira (SIMLEITE). As discussões evidenciaram a crescente integração entre pesquisa científica, inovação tecnológica, sustentabilidade e eficiência produtiva, demonstrando que os desafios da produção animal exigem uma abordagem multidisciplinar e sistêmica.
Palavras-chave: Zootecnia; Formação acadêmica; Sustentabilidade; Pastagens; Ovinocultura.
Introdução
Ainda antes do início das aulas da graduação em Zootecnia na Universidade Federal de Santa Catarina, recebi de meu coordenador a recomendação para participar do 35º Congresso Brasileiro de Zootecnia. À primeira vista, parecia um desafio desproporcional para um estudante que sequer havia concluído a primeira fase do curso.
A viagem, de aproximadamente 2.600 quilômetros entre Florianópolis e Viçosa, exigiu planejamento para conciliar as atividades acadêmicas, profissionais e o deslocamento terrestre. Entretanto, ao final do evento, tornou-se evidente que o investimento de tempo e recursos foi plenamente compensado pela qualidade da experiência.
Participar de um congresso nacional logo no início da graduação proporcionou uma visão ampla da profissão, permitindo compreender não apenas as diferentes áreas da Zootecnia, mas também os desafios científicos, ambientais, econômicos e geopolíticos que moldam o futuro da produção animal.
O tema central do congresso — "Planejando a Zootecnia para os próximos cem anos" — reforçou a necessidade de pensar a atividade de forma estratégica diante das transformações tecnológicas, das mudanças climáticas e das novas exigências impostas pelos mercados consumidores.
Também merece destaque o fato de o evento ocorrer durante as comemorações do centenário da Universidade Federal de Viçosa, instituição reconhecida nacionalmente como uma das principais referências brasileiras nas Ciências Agrárias.
Participação no evento
Na condição de estudante da primeira fase, o ZOOTEC representou uma verdadeira imersão no universo da Zootecnia.
Em apenas quatro dias foi possível acompanhar pesquisadores, professores, estudantes, produtores rurais e representantes do setor produtivo discutindo temas que, provavelmente, serão aprofundados ao longo de toda a graduação.
Além da qualidade científica das palestras, chamou atenção a organização do evento. Credenciamento, programação, infraestrutura e logística permitiram excelente aproveitamento das atividades, favorecendo a participação integral nos simpósios escolhidos.
Durante o congresso participei do XIV SIMCORTE, do XII SIMFOR, do I SIMPEQ e do XI SIMLEITE, cujos principais aspectos são apresentados a seguir.
SIMCORTE – Produção de Bovinos de Corte
O Simpósio de Produção de Bovinos de Corte concentrou discussões sobre nutrição, suplementação, metabolismo, genética, sustentabilidade e eficiência produtiva.
As apresentações evidenciaram que a eficiência alimentar permanece como uma das principais ferramentas para aumentar a produtividade e reduzir impactos ambientais, permitindo melhor aproveitamento dos recursos disponíveis.
Foram discutidos o uso de moduladores da fermentação ruminal, estratégias de suplementação, seleção genética para eficiência alimentar e tecnologias capazes de tornar os sistemas produtivos mais sustentáveis.
Entretanto, um dos aspectos mais interessantes foi perceber que a produção animal deixou de ser apenas uma questão técnica.
Diversas palestras mostraram como fatores geopolíticos influenciam diretamente a pecuária brasileira. As exigências impostas pelos mercados internacionais, especialmente relacionadas ao chamado "Boi China" e "Boi Europa", demonstram que qualidade, rastreabilidade, sustentabilidade e bem-estar animal passaram a exercer papel determinante na competitividade da carne brasileira.
Ao mesmo tempo, surgiram reflexões importantes sobre até que ponto determinadas exigências representam legítimas preocupações ambientais ou mecanismos de proteção comercial.
Essa abordagem permitiu compreender que ciência, política, economia e mercado caminham cada vez mais integrados.
SIMFOR – Manejo Estratégico de Pastagens
Entre todos os simpósios acompanhados, o SIMFOR foi o que apresentou maior afinidade com meus interesses acadêmicos.
As palestras demonstraram que a eficiência dos sistemas pastoris depende muito mais do manejo do que simplesmente da disponibilidade de forragem.
Foram discutidos sistemas silvipastoris, consórcios entre gramíneas e leguminosas, suplementação estratégica, produção de silagem e, principalmente, a influência do manejo do pastejo sobre o desempenho animal.
Chamou atenção a crescente utilização de inteligência artificial, sensoriamento remoto e análise de dados para monitoramento das pastagens. O conceito de agricultura e pecuária de precisão deixa de ser uma perspectiva futura para tornar-se uma realidade presente.
Ficou evidente que produzir mais não significa necessariamente utilizar mais recursos, mas utilizá-los de forma mais eficiente.
SIMPEQ – Produção de Pequenos Ruminantes
O I Simpósio de Produção de Pequenos Ruminantes reuniu pesquisadores, professores, estudantes e profissionais para discutir alguns dos principais desafios da ovinocultura e da caprinocultura brasileiras.
As palestras abordaram temas relacionados às exigências nutricionais de ovinos e caprinos, alimentação de cordeiros em confinamento, inseminação artificial, manejo reprodutivo e bem-estar animal, demonstrando o avanço técnico observado na atividade.
Entre os momentos mais marcantes esteve a apresentação do zootecnista Luciano Piovesan Leme, responsável pela Expedição Bééé Brasil.
Tive a oportunidade de conversar com Luciano durante o congresso e conhecer melhor seu projeto, que percorre o país visitando produtores, frigoríficos, associações, universidades e empresas ligadas ao setor, registrando em vídeo as diferentes realidades da cadeia produtiva.
A iniciativa demonstra como a comunicação pode contribuir para aproximar pesquisa, extensão rural e produção, fortalecendo um segmento que ainda possui enorme potencial de crescimento no Brasil.
As apresentações técnicas reforçaram que nutrição, reprodução, manejo e bem-estar animal devem atuar de forma integrada para aumentar a eficiência produtiva e a sustentabilidade dos sistemas de criação.
SIMLEITE – Produção de Bovinos Leiteiros
O Simpósio de Bovinocultura Leiteira encerrou minha participação no congresso apresentando discussões relacionadas à nutrição de vacas em lactação, manejo no período de transição, recria de machos leiteiros, tecnologias de monitoramento e bem-estar animal.
As palestras evidenciaram como a produção leiteira vem incorporando novas tecnologias para aumentar produtividade sem comprometer a saúde dos animais.
Temas como espectroscopia NIRS, manejo nutricional de precisão e estratégias para melhoria da qualidade de vida das vacas demonstram que inovação tecnológica e eficiência produtiva caminham lado a lado.
Mesmo sendo uma área diferente daquela em que pretendo atuar futuramente, foi possível perceber que muitos dos princípios discutidos são comuns a praticamente todos os sistemas de produção animal.
Reflexões
Ao longo dos quatro dias de congresso tornou-se evidente que a Zootecnia contemporânea está passando por profundas transformações.
Independentemente da espécie animal ou do sistema produtivo, os debates convergiam para os mesmos objetivos: produzir de maneira mais eficiente, reduzir impactos ambientais, utilizar tecnologias de monitoramento, aumentar o bem-estar animal e responder às crescentes exigências dos mercados consumidores.
Outro aspecto que chamou atenção foi a forte integração entre universidade, centros de pesquisa, empresas privadas e produtores rurais.
A produção científica apresentada durante o congresso demonstra que o conhecimento gerado nas universidades brasileiras possui enorme potencial de aplicação prática, desde que adequadamente difundido por meio da extensão rural e da assistência técnica.
Como estudante em início de formação, a experiência permitiu compreender que a atuação do zootecnista extrapola o manejo dos animais. O profissional moderno precisa compreender economia, gestão, sustentabilidade, inovação tecnológica, comportamento do consumidor e políticas públicas, atuando como elo entre ciência e produção.
Considerações finais
Participar do 35º Congresso Brasileiro de Zootecnia foi uma das experiências mais marcantes deste primeiro semestre da graduação.
O evento proporcionou uma visão abrangente da profissão e antecipou discussões que certamente acompanharão minha formação nos próximos anos.
Mais do que conhecer novas tecnologias, o congresso mostrou que o futuro da Zootecnia dependerá da capacidade de integrar ciência, inovação, sustentabilidade e eficiência produtiva em sistemas cada vez mais complexos.
Retorno da Universidade Federal de Viçosa não apenas com novos conhecimentos, mas também com uma compreensão mais clara sobre a amplitude da profissão e sobre a responsabilidade do zootecnista na construção de uma agropecuária mais eficiente, sustentável e preparada para os desafios do futuro.
Rinaldo Conti
Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC
A Inteligência Artificial deixou de ser uma tecnologia do futuro. Ela já faz parte do dia a dia de milhões de pessoas e começa a transformar rapidamente a forma como o agronegócio produz, administra e toma decisões.
Ao contrário do que muitos imaginam, a IA não substitui o conhecimento do produtor. Ela funciona como uma ferramenta capaz de analisar grandes volumes de dados, identificar padrões e sugerir soluções em poucos segundos. O resultado é mais eficiência, menos desperdício e decisões baseadas em informação, não apenas na experiência.
No campo, as aplicações já são inúmeras. A inteligência artificial pode identificar doenças em plantas por meio de imagens, estimar produtividade, monitorar rebanhos, analisar dados climáticos, otimizar o uso de fertilizantes, auxiliar no manejo de pastagens e até apoiar o planejamento financeiro da propriedade. Em muitos casos, tarefas que exigiriam horas de trabalho passam a ser executadas em poucos minutos.
Mas é importante compreender que nenhuma tecnologia substitui o olhar crítico do produtor. Sistemas de IA podem cometer erros, reproduzir informações incorretas ou trabalhar com dados desatualizados. Por isso, toda recomendação deve ser analisada por quem conhece a realidade da propriedade e compreende os objetivos da produção.
Outro aspecto fundamental é o uso responsável da tecnologia. A qualidade das respostas depende diretamente da qualidade das informações fornecidas. Quanto mais claros forem os dados e as perguntas, melhores tendem a ser os resultados. A inteligência artificial não elimina a necessidade de conhecimento técnico; ela potencializa a capacidade de quem sabe utilizá-la.
Assim como ocorreu com a mecanização agrícola, o GPS e os drones, a IA tende a se tornar uma ferramenta cada vez mais presente nas propriedades rurais. O produtor que aprender a utilizá-la desde cedo estará mais preparado para reduzir custos, aumentar a produtividade e tomar decisões mais seguras em um mercado cada vez mais competitivo.
No agronegócio moderno, tecnologia não substitui pessoas. Ela amplia a capacidade de quem está disposto a aprender.
Rinaldo Conti
Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC
*Este artigo foi elaborado com base no curso "Fundamentos da IA no Contexto do Serviço Público", da Escola Nacional de Administração Pública (Enap), complementado por conceitos consolidados sobre Inteligência Artificial e suas aplicações práticas.
Não é à toa que utilizamos expressões como ir à luta para nos referirmos ao trabalho e a vida cotidiana. Talvez tenha sido este tipo de reflexão que me chamou a atenção para um livrinho que parecia ser da categoria infantil, ou infanto juvenil, e estava perdido numa seção de livros esotéricos. Li este livrinho em algumas noites, por uns minutos, antes de dormir, e confesso que não só ele não era um livro para crianças, como condensa nas suas poucas páginas o resumo de combates violentos de uma vida toda, de várias vidas…
No imaginário popular da minha geração, nascido no interior no anos 80, os cavaleiros medievais não se dividiam entre bons e maus. Era mais uma divisão entre reinos e principados, povos com pequenas diferenças entre si, e que assim como acontece hoje em dia, viviam em guerra por motivos diversos. Eventualmente um cavaleiro mais aventureiro ia matar um dragão e salvar uma princesa, mas no geral, eles eram bons agentes da segurança pública da época.
A surpresa que o livrinho nos traz é que na armadura polida e brilhante do cavaleiro, em poucas páginas, começamos a perceber o reflexo de uma vaidade maior do que das virtudes. E na medida em que a armadura fica enferrujada e prende no seu interior o cavaleiro, é possível sentir também um certo aperto, e é difícil não ver no brilho que resta as vaidades que também nos prendem e outras cicatrizes das batalhas cotidianas que vivemos.
Lá pelas tantas, entre batalhas reais e inventadas, dignas de um Dom Quixote, o cavaleiro se perde nas próprias fábulas do seu tempo, e a vida real que ele tinha começa a desaparecer. A falta de atenção com a família, o égo e a vaidade prendem o cavaleiro na armadura! Pra quem já passou semanas, meses e anos em um ritmo absurdo de trabalho, e se deu conta que neste meio tempo; pessoas e experiências simplesmente passaram, e partiram e não vão mais voltar. É impossível não se ver preso dentro de uma armadura. Mas nem o brilho se perde, e nem a ferrugem aparece da noite pro dia. E no fim a grande aventura deste pequeno livro, é o desafio de sair da armadura para encarar as batalhas diárias que se luta de peito aberto. E sem dar spoiler, porque é um livrinho que todo mundo deveria ler em uma tarde qualquer. Basta dizer que o final é trágico, épico e surpreendente, digno de um bom romance de cavalaria.
Leia e tire as suas conclusões, porque você vai ler rápido, mas vai pensar no assunto por um bom tempo, tenho certeza. Da minha parte, posso dizer que me livrei de uma parte ou outra da armadura, mas ainda ando lidando com a ferrugem, cobri algumas cicatrizes com tatuagens e ainda tenho que escolher quais batalhas vou encarar a cada dia, mas graças a este pequeno livro, ao menos faço isso de forma um pouco mais leve.
Rinaldo Conti
Resenha livre
REFERÊNCIA
FISHER, Robert. O cavaleiro preso na armadura. São Paulo: Record, 1993.